Meu primeiro tiroteio

22 setembro, 04:06

Acordei há mais ou menos vinte minutos rodeado pelo som de tiros.

Por algum motivo ainda oculto para mim, passei o dia ouvindo fogos de artifício sendo soltos esporadica mas insistentemente, por toda a cidade.
Onde quer que estivesse, ouvia “doze rojões” vez por outra: no trabalho, na cafeteria, durante o jantar.
Ao ouvir os tiros enquanto dormia, achei que fossem apenas mais fogos, tanto que eles entraram meus sonhos como sendo apenas isso: fogos de artifício.
Mas eu sei reconhecer o som de disparos de .38 por já ter atirado algumas vezes numa fazenda de um amigo.
E foi o entendimento que me acordou.

Estava sonhando com uma final de campeonato de alguma coisa e de repente estava rodeado por atiradores, correndo pela minha vida.
Me levantei assustado a tempo de constatar que o que me acordou eram balas sendo disparadas. O som de tábuas de madeira se chocando é inconfundível.

Pela altura, era aqui perto. Pelo eco, era muito perto. Ainda não tenho certeza, mas acho que entre o meu prédio e o vizinho.
Ainda não tive oportunidade de interfonar para a portaria pois numa tentativa de acalmar meu coração, liguei a TV e antes da imagem estabilizar ouvi palavras tão comuns hoje em dia que prenderam a minha atenção: “ataque terrorista”.

Segundo um canal de notícias 24hs, rebeldes separatistas taiwaneses aceleraram o inevitável, arrancando um pedaço da Represa das Três Gargantas.
E quando se trata de um aparador de água, “um pedaço” é o mesmo que “todo”.

O projeto já vinha apresentando problemas desde seu início quase vinte anos atrás, incluindo reparos apressados em rachaduras imensas e o medo constante de desabamento devido ao peso do volume de água empurrando a maior parede de contenção da história.
Os taiwaneses foram lá e deram um “empurrãozinho”. Com bombas.

Ou não! A mídia não é exatamente livre naquela parte do mundo e é difícil saber o que exatamente está acontecendo.
Segundo um dos “especialistas” do canal, tremores sísmicos foram registrados na área ao redor da represa, o que pode ter sido a real causa da tragédia. Porque quando a maior estrutura já construída rompe e bilhões de litros de água jorram sem controle em direção a áreas povoadas, não há outra palavra a ser usada senão “tragédia”.
Outro especialista disse depois que culpar os separatistas faz sentido e que a retaliação já está a caminho.
Não entendo de política internacional.

Perdi o fio da meada na última linha porque ouvi sons de sirene. Não da polícia, mas de ambulância.
Fui lá embaixo ver o que tinha acontecido. Eu e todos os moradores de todos os prédios da rua.
Poucas vezes vi tanta gente junta às três e pouco da manhã. E certamente nunca vi tanta gente de pijama ao mesmo tempo.

Três mortos no tiroteio. Um deles taxista, com um tiro nas costas.
Além do táxi, outro carro abandonado com um corpo no banco de trás, “morto há pelo menos oito horas” segundo um maqueiro da ambulância. Também de tiro.

Faltando três horas para eu ir trabalhar, vi quatro cadáveres em frente ao meu edifício.
E milhares de mortos virtuais potenciais na TV.

Vou preparar meu café e ouvir música enquanto espero amanhecer.

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2 Respostas to “Meu primeiro tiroteio”


  1. […] estaria lá. Anteontem a tarde fui ao edifício vizinho e conversamos sobre muitas coisas; o tiroteio -que ele não viu-, a morte do embaixador, meu dia na praia -ele contou que presenciou algo […]


  2. […] rabecão acaba de sair com os corpos, mas acho que o guincho só vem tirar os carros do meio da rua depois das […]


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