A medida das coisas

5 outubro, 08:31

Por causa da irresponsabilidade dessa corja nojenta chamada coletivamente de “Mídia”, hoje mais uma pessoa de bem morreu!

Eu cheguei aqui no escritório muito chocado e abatido mas agora estou enfurecido!
Vejam só: o porteiro que trabalhou dezesseis anos no meu prédio pediu demissão ano passado por motivos pessoais. Já neste segundo semestre ele voltou procurando emprego mas sua vaga estava compreensivelmente ocupada, mas ele deu sorte que o edifício ao lado do meu estava demitindo um de seus funcionários, então ele conseguiu ficar lá.

Ele virou porteiro do meu condomínio assim que eu me mudei e criamos uma amizade por causa disso. Não um relacionamento patrão-empregado, mas uma amizade mesmo. Eu ia para aniversários na casa dele e ele para festas na minha e o ajudei o quanto pude durante um problema em sua família, que o levou a pedir as contas.
Quando ele voltou eu fiquei muito feliz pois teria meu amigo de volta por perto, mesmo que no prédio ao lado.

Pela escalação da portaria ele trabalhava dia sim, dia não.
Hoje era um dia-sim.

Quinta-feira quando sai eu notei que ele não estava lá. Quando voltei, perguntei o motivo e o substituto disse “gripe suína”.
Imediatamente liguei para meu amigo para saber como ele estava e ouvi que ele -bastante aliviado- havia acabado de voltar do hospital pois não estava com gripe alguma.

Conversamos um pouco e ele disse que sábado estaria lá.
Anteontem a tarde fui ao edifício vizinho e conversamos sobre muitas coisas; o tiroteio -que ele não viu-, a morte do embaixador, meu dia na praia -ele contou que presenciou algo parecido semana passada-, a guerra, sobre como o mundo está com o futuro ameaçado, etc. Só as “coisas boas”.

Ele parecia muito cansado e suava muito. Perguntei como ele se sentia e ele me disse.
“É essa dengue…”

DENGUE!?
Sim! Ele estava com dengue e estava trabalhando!

Imediatamente perguntei se o síndico tinha mandado ele ir e ele negou, disse que “quando soube que não era a gripe de porco que tá todo mundo dizendo que é pior que qualquer doença” relaxou e achou que não tinha problema e não queria faltar outro dia de trabalho.
Ele sempre foi um empregado exemplar e realmente se incomodava em faltar, mesmo quando justificavelmente.

Como estava perto da hora dele largar, fiquei mais um pedaço e o levei pessoalmente ao hospital, pois ele estava piorando visivelmente.
No caminho, ele me contou que viu mais de uma vez na TV que essa gripe nova é mais contagiosa e mata mais que qualquer outra coisa e que “apenas o fato não se estar gripado já pode ser considerado uma grande vitória”.
Isso foi dito na TV. Para milhões de pessoas.
Ele raciocinou que, se não estava com a doença mortal, estava com a saúde em dia.

Como trabalho de porteiro envolve correr para atender chamados, subir escada e outras instâncias de esforço físico -perfeitamente o oposto do que ele deveria estar fazendo; descansando-, ele estava muito mal quando chegamos ao pronto-socorro.

Ontem eu não pude ir visitá-lo e seu celular estava desligado.
Hoje, pergunto ao porteiro substituto se ele deu notícias. Nada.
Neste momento ouço a voz do síndico atrás de mim e me viro para tentar ouvir melhor -pois certamente ouvi errado da primeira vez.

Não, eu ouvi certo sim.
A esposa do meu amigo ligou para o trabalho para dizer que nesta madrugada a dengue hemorrágica o matou.

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