Noite das garrafadas

11 outubro, 02:21

Nunca em minha vida vi uma cena tão violenta!
Nem em filme!
Nem na praia!

Resolvi passar o fim-de-semana prolongado em Buenos Aires e achei que os argentinos fossem civilizados, mas estava redondamente enganado.
Depois do que presenciei, atencipei a minha volta e acabo de chegar em casa, tendo perdido uma dia inteiro do meu pacote de viagem, incluindo diária em hotel e a multa da companhia aérea para mudar a data do bilhete.

Domingo é o dia de uma feira muito famosa na capital argentina e eu fiquei por lá até escurecer, pois estava realmente gostando muito do que via, até comprei algumas besteirinhas para a minha família.

Depois que o sol se pôs, andei até um barzinho para tomar um vinho com meus acompanhantes e, de repente, sem motivo aparente, todos ao meu redor enlouqueceram!

O primeiro barulho veio pelas minhas costas, então não sei o que aconteceu -também não tenho a quem perguntar, pois as três pessoas que estavam comigo estão agora num hospital em Buenos Aires.

Quando me virei, vi um rapaz com o rosto ensanguentado, segurando o gargalo de uma meia garrafa e olhando para o chão, onde estava um senhor grisalho de olhar tenso, com bastante sangue esguichando de seu pescoço.
Antes de conseguir entender a situação, praticamente todos os convivas do bar onde estava -com exceção de mim, dois colegas brasileiros e um casal argentino com um bebê de colo- sairam em disparada, gritando.
Não para longe, mas para o centro da cena.

Tudo parece muito confuso na minha cabeça. Eu não notei o que eles carregavam quando se levantaram, mas de uma hora para outra todos empunhavam garrafas e tentavam quebrá-las nas cabeças uns dos outros, sem razão óbvia.
As garrafas já meiadas eram usadas como punhais de vidro, geralmente avançando em direção a pescoços e abdômes.

Lembrar de pedaços humanos expostos e quantidades absurdas de sangue no chão de uma praça não é exatamente meu passatempo favorito e eu já vomitei quatro cinco vezes de lá para cá.
Uma delas enquanto escrevia o parágrafo anterior.

Eu não sei o que aconteceu, nem quero saber.
Saí de lá o mais rápido que pude, felizmente conseguindo uma carona com os pais da criança antes que o bar fosse invadido por loucos em busca de mais arsenal.
E casal só me ajudou porque eu os ajudei antes -fizeram questão de deixar isso bem explícito no caminho para o hotel- usando a minha mesa como um escudo antigarrafas para proteger o bebê.
Ainda vi um dos meus companheiros de excursão levar uma cadeirada nas costas.

Não sei o que a polícia fez, mas quando já estava dentro do carro, ouvi sirenes e tiros ao longe.
Cheguei no hotel, fechei minha mala e peguei um táxi para o aeroporto, o único lugar seguro em que eu conseguia pensar.

Como eu disse, acabei de chegar em casa, literalmente; entrei, liguei o computador e comecei a escrever.
Olhei para meus pés agora há pouco e notei uma coisa que me fez vomitar novamente: tem um caco de vidro verde preso no cadarço do meu tênis.

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2 Respostas to “Noite das garrafadas”


  1. […] convenientemente só apareceu três horas depois da “pane”- me fez relembrar como somos animais. Ao menor sinal de que podemos manter nossa impunidade, nos transformamos e mandamos a sociedade […]


  2. […] que o que eu descrevi ontem tem algo a ver com […]


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