Nunca ajudem estranhos

21 dezembro, 23:13

Acabo de chegar do hospital.

Sexta-feira eu decidi ir assistir a uma apresentação de chorinho gratuita, no meio da rua.
Eu já havia ido uma vez e sei que a música é excelente mas o local é um buraco, digno de ser evitado porque os frequentadores não são dos mais educados.

Eu só voltei lá anteontem porque me disseram que a estrutura tinha melhorado. Mas isso é apenas meia verdade.
Os músicos não tocam mais sentados em cadeiras na esquina. Agora existe um palco coberto e com amplificação sonora.
Mas o ambiente para o público continua igual.

O show se dá numa esquina de duas ruas de calçamento estreitas.
Do jeito que o palco está, recuado, acho que no máximo 20% dos presentes conseguiam ver a banda -que antes tocava na esquina, mas sem caixas de som- apesar do som ser alto o suficiente para todos.
Eu acho que ali tinha mais de quinhentas pessoas. Num lugar onde caberiam confortavelmente duzentas.

Pois bem, resolvi ir dar uma olhada, mas não aguentei ficar mais que duas músicas.
Estava o tempo todo com uma sensação ruim devido ao cheiro intenso de maconha no ar e ao barulho de garrafas quebrando nos intervalos entre as músicas. E esse som em particular não me traz boas recordações.

Quando já estava indo embora, ouvi uma voz feminina pedindo ajuda.
A noite já estava bastante assustadora para meu gosto e eu apressei o passo para não me envolver, mas quando mudo de calçada, percebo que estou andando em direção à uma garota que está chorando e tentando correr, mas manca muito.
Novamente escuto o “por favor, alguém me ajude!” e constato que a voz vem dessa pessoa, que está cada vez mais próxima de mim, mesmo tendo eu diminuido minha velocidade.

Quando chego perto o suficiente, sem coragem para dar às costas a uma mulher naquela situação, ela me agarra e suplica que eu a leve dali.
Eu não sei se havia alguém por perto, pois toda a minha atenção estava voltada para ela.

Sua perna sangrava e isso me preocupou bastante. Não por ela estar perdendo sangue, mas por eu estar próximo demais a material biológico desconhecido.

Ainda mancando, mas com a minha ajuda, ela conseguiu ir um pouco mais depressa até a rua principal, onde entramos num táxi.
Eu disse ao taxista para me levar para um bar aqui perto de casa e a ela que não me responsabilizaria pelo que quer que fosse. Ela pediu ajuda e aquilo era o máximo que eu faria.
Ela agradeceu e, quando fui descer do carro, ela disse que o mínimo que poderia fazer era pagar a corrida completa.

Se eu tivesse a menor ideia de como seria meu resto de fim-de-semana, não teria agradecido pelos sete reais que ela pagou por mim.

No bar, encontrei com uns amigos e fiquei lá até umas duas da manhã, quando resolvi voltar para casa andando -é muito perto, são cinco minutos de lá para cá-.
Quando dobrei a esquina da minha rua, fui fechado por um carro com três homens dentro.

Um deles saiu e veio correndo em minha direção, segurando algum objeto que eu preferi não conferir de perto mas acho que era um martelo.
Quando notei isso -demorou um pouco devido à vodca que estive bebendo-, percebi também que os outros dois também estavam sando do carro.

Como estava a poucos metros do meu edifício, comecei a gritar pelo porteiro, que abriu o portão dos carros e veio até mim com um cassetete em punho.
Eu não olhei para trás enquanto corria, mas ouvi um dos desconhecidos dizer “vamo embora, vamo!” quando o porteiro estava chegando no portão.

No sábado logo cedo eu fui à delegacia prestar queixa, mas o delegado disse que não podia fazer nada pois eu não reconheci ninguém nem tinha pego placa de carro nem nada.
Mesmo assim, fiz um B.O. e fui com meu irmão para a casa de praia do nosso tio, onde passamos o dia.

Cheguei de volta ainda de dia e pensei em ir ao supermercado comprar pão. Mas quando desci do carro, notei a presença do carro da noite anterior e imediatamente liguei para a polícia, ainda com a porta do carro do meu irmão aberta.

Quando o motorista me viu, ligou o carro e foi embora. Mas dessa vez eu anotei a placa.
A polícia chegou bem depois, quando a noite já ia muito escura. Pegaram os detalhes que eu narrei -o que poderia ter sido feito pelo telefone mesmo- e foram embora, “investigar”.
Perto de meia-noite, o delegado me liga dizendo que o carro era roubado e que o máximo que eles podiam fazer era mandar uma viatura patrulhar meu bairro.

Não posso dizer que a viatura não apareceu porque, como eu já estava em casa e dormindo há algum tempo, não fiquei acordado o resto da noite.
Ontem, no entanto, eu sei que não tinha um só policial na rua.

Como ontem foi domingo, eu passei o dia em casa -como de costume- e só pensei em sair quando lembrei da falta de pães, mas a preguiça foi mais forte e só criei coragem faltando meia hora pro supermercado fechar, às sete e meia da noite.

Fui, comprei e voltei. Mas não cheguei a entrar sequer na minha rua.
Ainda antes da esquina, ouvi um carro se aproximando e, com medo, comecei a correr. Mas o carro que ouvi não era o que eu temia, pois esse já estava estacionado, me esperando.
Correr apenas me fez chegar nele mais rapidamente.

A última coisa que lembro foi da visão do carro e uma mancha preta se formando na minha frente.
Só senti a dor hoje cedo, quando recobrei os sentidos.

Minha cunhada estava ao lado da minha maca e disse que, se o vigia do prédio em frente não estivesse armado, eu teria sido assassinado ali mesmo na esquina.

Resumindo a estória -pois já digitei demais e estou exausto-; o porteiro do meu edifício ouviu o barulho, viu que era eu no chão e correu para ajudar, ouviu um dos três agressores dizer que eu nunca mais mexeria com a mulher dele, enquanto chutava violentamente meu corpo inerte.
Ele então correu para o prédio vizinho e chamou pelo vigia, que chegou atirando no carro.
Os três entraram no carro, disseram que iam voltar para acabar o serviço e foram embora.

A ambulância chegou em quinze minutos, mas a polícia só apareceu algumas horas depois e só tomaram meu depoimento pouco antes de eu deixar o hospital.

Tenho uma concussão na nuca, três costelas fraturadas, só estou enxergando por um olho, minha mandíbula está imobilizada, me faltam dois dentes e mais cinco estão quebrados e tive uma pequena hemorragia interna abdominal.

E a polícia ainda não tem pistas de quem sejam esses três.
Ou aquela mulher.

O taxista ainda não foi encontrado.

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4 Respostas to “Nunca ajudem estranhos”

  1. Tati Nahas Says:

    Nossa mãe, que história mais surreal!!! Como vc está agora?

  2. Tati Batista Says:

    Meu Deus!!! Bem, já pensastes em se mudar, certo? Porque, realmente, eles podem voltar! Não tem nenhum prédio com circuito de vídeo na sua rua que possa ter gravado o ocorrido?


  3. […] fevereiro, 17:20 um mes e meio apos ter sido brutalmente agredido por marginais na rua onde moro, fui novamente atacado, mas por um motivo […]


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