Últimos dias

29 dezembro, 14:59

Agora que me dei conta de que o ano está acabando. Passei a última semana -acho, não tenho certeza- dopado e num mundo estranho, onde as coisas acontecem lentamente, como se o mundo estivesse recoberto por um gel espesso. Um terror constante sobre mim, como se eu estivesse preso em um pesadelo horrível e soubesse disso e não conseguisse acordar. Minha geladeira está cheia de comida que eu não reconheço, pedaços de frango, uma farofa estranha, garrafas de bebidas com rolhas, pratos brancos. Não reconheço minha cozinha, sei que ela não mudou, mas há algo distinto nela, como se toda a louça que eu possuo tivesse sido trocada mas também não foi isso. Eu não sei, tenho a sensação de que algo está perto do fim, estou confuso. Acordei agora, feliz por ter acordado e saido de um mundo de fantasia induzido, uma pessoa ao meu lado falava ao telefone. Minha cunhada, falando com meu irmão -acho que era ele- e me disse que o taxista não foi encontrado mas seu carro está queimado em uma vala. Espero que não tenha entendido errado, o contrário seria horrível e não consigo mais absorver informações ruins. Essa minha semivida anda estranha, tem um televisor no meu quarto agora, acho que para ela mais do que para mim. Meu sobrinho esteve aqui, tem um boneco de ação na cozinha, mas também não é isso, é algo estruturalmente diferente, perto do fim. Meu corpo ainda dói, minha língua está seca como se eu nunca tivesse bebido água em minha vida, meu nariz está entupido mas não consigo entender como, minha visão parece normal mas também não entendo o porquê. Meu banheiro e minha cama estão com um cheiro estranho e eu estou constantemente com frio. Ou pelo menos sempre que acho que estou acordado sinto frio. Não sei quando -é difícil perceber em que dia estou quando acordo no meio da noite sem conseguir me comunicar- mas ouvi ambulâncias e isso me assustou, porque tenho certeza que uma delas desligou a sirene no meio do caminho e sirenes indicam emergências de vida, silêncio indica falta de pressa. O céu estava vermelho mas ainda era noite, acho que algo está em chamas, mas posso ter apenas sonhado e não entendia minha cunhada falando, algo sobre o fim. Hoje pela primeira vez depois que cai neste universo de confusão consegui tirar significado de suas palavras e o táxi está destruido numa vala. Ela disse que eu não posso mas eu quero sair, preciso beber água mas não posso. Ou acho que não posso, não sei. O que não posso é continuar sem minhas faculdades, minha cabeça dói preciso parar. Meu peito dói, minha barriga dói, minha voz está estranha, mas é só mais uma coisa estranha neste momento em que me encontro preso. Algo sobre o fim, espero que seja apenas o ano, eu lembro que a decoração havia mudado e minha geladeira agora tem comida que eu não conheço. Que “últimos dias” são esses?

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Uma resposta to “Últimos dias”


  1. […] e reli minhas duas últimas entradas e não consigo fazer sentido delas. Apenas sei que um ano já se foi e outro novo já […]


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