Onde estão todos?

28 dezembro, 01:31

Eu tenho total noção da época do ano.Meu sobrinho não recebeu meu presente,eu sei que não,vi a caixa aqui.Deveriam ter levado.Não por mim,por ele.Crianças merecem presentes,eu não mereço presentes.Qual é mais importante,meu ato de dar ou o dele de receber,se minha única alegria fosse essa é certo suprimir apenas mais uma alegria dele por minha causa?Acho que sim.Coisas ruins acontecem com pessoas boas mesmo quando essas pessoas ainda são novas demais para terem consciência de bom ou ruim.Então eu sou uma pessoa boa se algo ruim me acontece?Meu presente não foi entregue,esse seria o meu presente,isso é ruim para mim,sou uma pessoa boa?Mas ele também não recebeu,isso é ruim também para ele,pode haver mais de uma pessoa boa por situação ruim?Estou com tanta fome.Onde estão todos?

Violência na praia

19 setembro, 13:58

Pois é, tive que voltar mais cedo. A praia não é um lugar particularmente seguro neste momento.
E não estava com medo de ter minhas coisas roubadas. Isso nem me passou pela cabeça na verdade.
Estava com medo de apanhar por nada, isso sim!

Pelo que eu entendi assim que vi a confusão se formando, dois garotinhos estavam brincando na água, foram levados pela maré e um -infelizmente- se afogou enquanto o outro foi resgatado a tempo por um surfista.

Eu não consegui ter certeza qual dos três envolvidos era o pai do menino que morreu nem o pai do resgatado, mas ouvi os gritos de acusação, quase tão altos quantos os choros da duas mães envolvidas.
O terceiro homem estava certamente sobrando nessa situação, mas isso não o impediu de apontar o dedo para os outros (todos os três estavam agitados, era muito difícil entender à primeira vista).

Um vendedor de água de coco que experientemente se afastou do tumulto logo no começo me disse que quando o surfista chegou, trazendo as duas crianças mas apenas uma viva, as duas famílias -que esperavam ansiosamente na rebentação- começaram instantaneamente a soltar acusações entre si, pois “quem deveria estar olhando eles brincando era você!” e uma auto-proclamada testemunha apareceu para dizer que todos estavam errados e que ele iria levar aquilo à polícia e que os pais e mães iriam para a prisão por omissão e desaforos começaram a voar para todos os lados inclusive para cima do coitado do surfista, que deveria estar sendo exaltado como herói pois foi o único com coragem para enfrentar aquele mar de ressaca.
Aliás, abrindo um parênteses aqui: por que o mar está tão agitado hoje? A época do ano está errada, ou é impressão minha?

Mas, continuando, o surfista cansou de tentar se justificar e saiu do meio da gritaria, junto com o vendedor de coco que me contou tudo isso aí em cima.
O resto só dá para inferir pelos gritos que eu conseguia ouvir a uma distância de uns 100 metros que avaliei segura.

Mas isso era só bate-boca mesmo. A pancadaria só começou quando um quarto homem, inadequadamente vestido para um dia ensolarado na praia começou a sacudir um livro preto sobre a cabeça condenando todos ao inferno.
Não estou brincando, um pastor de terno, gravata e sapatos, na beira da praia, pregando aos pecadores!
Eu suponho que ele estivesse passando de carro -ou no máximo estivesse andando na calçada- e parou para intervir com a “palavra” quando viu o furdunço.

Na quarta vez que ele bradou a palavra “condenados”, um coco apareceu do nada e chocou-se violentamente contra seu rosto, que começou imediatamente a jorrar sangue nas pessoas reunidas à sua frente.
O mais impressionante é que isso apenas aumentou o fervor da condenação, especialmente quando um dos atingidos pelo sangue gritou: “ECA! VOU PEGAR AIDS!” e saiu correndo.

Eu não notei a aglomeração se formando, só lembro que no início haviam poucas pessoas por perto -umas oito ou dez-, mas quando o pastor bateu com a bíblia na cabeça de um adolescente ao seu lado já tinha gente demais para contar.
E foi aí que a tensão foi demais.

De repente, como um tampo de vidro de mesa que não aguenta o peso dos pratos e simplesmente desaba, a praia virou um campo de batalha. Parecia coisa de filme!
Todo mundo batendo em todo mundo, alguns já no chão sangrando e inconscientes e outros -com um olhar de ódio que é até difícil de descrever- correndo para todos os lados, agarrando os que tentavam se refugiar.

De uma hora para a outra, meus cem metros já não pareciam tão seguros e eu corri o mais rápido que pude para um restaurante que fica perto da parada de ônibus e só escapei de ser atacado porque o pobre vendedor de cocos tentou levar seu carrinho consigo e não conseguiu correr, sendo derrubado por três homens.

Da última vez que olhei para trás, o carrinho estava caído de lado, o isopor destruído, o vendedor encolhido no chão levando chutes e o surfista-herói -já tendo nocauteado a pranchadas um dos agressores- vindo por trás dos outros dois, com a prancha levantada e pronta para quebrar mais algumas cabeças.

A última coisa que eu ouvi de um dos passantes antes da desordem irromper foi: “Que dia horrível! Um garoto morreu e outro está traumatizado!”
Traumatizado certamente. Não pela experiência quase mortal do afogamento, mas pelo desenrolar da tarde naquela praia.

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